Eis que o teu Rei Virá texto extraído do livro O Desejado de Todas as Nações, de Ellen G. White
    "Alegra-te muito, ó filha de Sião; exulta, ó filha de Jerusalém; eis que o teu Rei virá a ti, justo e Salvador, pobre, e montado sobre um jumento, sobre um asninho, filho de jumenta." Zac. 9:9. 
    Quinhentos anos antes do nascimento de Cristo, o profeta Zacarias assim predisse a vinda do Rei de Israel. Essa profecia devia então cumprir-se. Aquele que por tanto tempo recusara honras reais, vem agora a Jerusalém como o prometido herdeiro do trono de Davi. 
    Foi no primeiro dia da semana que Jesus fez Sua entrada triunfal em Jerusalém. Multidões que haviam afluído a vê-Lo em Betânia, acompanharam-nO, ansiosos de Lhe testemunhar a recepção. Muita gente se achava a caminho de Jerusalém para celebrar a páscoa, e uniu-se à multidão que acompanhava Jesus. Toda a Natureza parecia regozijar-se. As árvores estavam verdejantes, e as flores espargiam pelo ar um delicado aroma. O povo achava-se animado de nova vida e alegria. Surgia mais uma vez a esperança do novo reino. 
    Determinado entrar a cavalo em Jerusalém, Jesus mandara dois dos discípulos buscarem para Ele uma jumenta e seu asninho. Por ocasião de Seu nascimento, o Salvador dependeu da hospitalidade de estranhos. A manjedoura em que esteve, foi um lugar de descanso emprestado. Agora, se bem que Seu seja todo o gado sobre milhares de colinas, depende da bondade de um estranho quanto a um animal em que entrar em Jerusalém como 
Rei. Novamente, porém, se manifesta Sua divindade, mesmo nas mínimas instruções dadas aos discípulos para o desempenho desse mandado. Como predissera, foi prontamente satisfeito o pedido: "O Senhor os há de mister." Mat. 21:3. Jesus preferiu servir-Se do asninho em que nenhum homem jamais montara. Com alegre entusiasmo, estenderam os discípulos suas vestes sobre o animal e sobre ele sentaram o Mestre. Até então Jesus sempre viajara a pé, e a princípio os discípulos se admiraram de que agora preferisse montar. Mas a esperança lhes raiou no coração ao jubiloso pensamento de que Ele estava para entrar na capital, proclamar-Se Rei, e firmar Seu poder real. Ao irem cumprir as ordens recebidas, comunicaram sua alegre esperança aos amigos de Jesus, e o despertamento espalhou-se por toda parte, fazendo com que subisse de ponto a expectação do povo. 
    Cristo estava seguindo o costume judaico nas entradas reais. O animal que montava era o mesmo cavalgado pelos reis de Israel, e a profecia predissera que assim viria o Messias a Seu reino. Logo que Ele Se sentou no jumentinho, um grande grito de triunfo atroou nos ares. A multidão aclamou-O como o Messias, seu Rei. Jesus aceitou agora a homenagem que nunca dantes permitira, e os discípulos consideraram isso como prova de que suas alegres esperanças se realizariam, vendo-O estabelecido no trono. O povo ficou convencido de aproximar-se a hora de sua emancipação. Em pensamento viram os exércitos romanos expulsos de Jerusalém, e Israel mais uma vez nação independente. Todos estavam contentes e despertos; disputavam entre si o render-Lhe honras. Não podiam exibir pompas e esplendores, mas prestaram-Lhe o culto de corações felizes. Não lhes era possível presenteá-Lo com dádivas custosas, mas estendiam as vestes exteriores à guisa de tapete em Seu caminho, e também espalharam ramos de oliveira e palmas por onde devia passar. Não podiam abrir o cortejo triunfal com bandeiras reais, mas cortavam ramos de palmeira, os emblemas de vitória da Natureza, e os agitavam no ar com altas aclamações e hosanas. 
    À medida que avançavam, aumentava sempre o povo com a reunião dos que tinham ouvido da vinda de Jesus e se apressavam a tomar parte no acompanhamento. Os espectadores continuamente se misturavam à turba, perguntando: Quem é Este? Que quer dizer toda essa agitação? Todos tinham ouvido falar de Jesus, e esperavam que fosse a Jerusalém; mas sabiam que até então Ele Se esquivara a qualquer esforço para O colocar no trono e ficavam muito surpreendidos de saber que este era Ele. Cogitavam que teria operado essa grande mudança nAquele que dissera que Seu reino não era deste mundo. 
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 Suas perguntas são abafadas por um grito de triunfo. Este é aqui e ali repetido pela turba despertada, acompanhado pelos mais distantes, e ecoado pelos montes e vales. E depois acresce a comitiva pelas massas vindas de Jerusalém. Das multidões reunidas para assistir à páscoa, milhares saem ao encontro de Jesus. Saúdam-nO com o agitar das palmas e cânticos sagrados. Os sacerdotes fazem soar, no templo, a trombeta para o serviço da tarde, mas poucos atendem, e os príncipes, alarmados, dizem entre si: "Eis que toda a gente vai após Ele." João 12:19. 
    Nunca dantes, em Sua vida terrestre, permitira Jesus essa demonstração. Previa claramente o resultado. Levá-Lo-ia à cruz. Era, porém, Seu desígnio apresentar-Se assim publicamente como Redentor. Desejava chamar a atenção para o sacrifício que Lhe devia coroar a missão para com o mundo caído. Enquanto o povo estava reunido em Jerusalém para a celebração da páscoa, Ele, o Cordeiro de Deus, representado pelos sacrifícios simbólicos, voluntariamente Se pôs de parte como oblação. Seria necessário que Sua igreja, em todos os sucessivos séculos, fizesse de Sua morte pelos pecados do mundo assunto de profunda reflexão e estudo. Todos os fatos com ela relacionados deviam verificar-se de maneira a ficarem acima de qualquer dúvida. Era preciso, pois, que os olhos de todo o povo fossem então dirigidos para Ele; os acontecimentos que precederam Seu grande sacrifício deviam ser de molde a chamar a atenção para o próprio sacrifício. Depois de uma demonstração como a que acompanhou Sua entrada em Jerusalém, todos os olhos Lhe seguiram a rápida marcha para a cena final. 
    Os acontecimentos relacionados com essa entrada triunfal constituiriam assunto de todas as bocas, e tornariam Jesus objeto das cogitações de todos os espíritos. Depois de Sua crucifixão, muitos recordariam estes fatos relacionados com Seu julgamento e morte. Seriam levados a pesquisar os escritos dos profetas e convencer-se-iam de que Jesus era o Messias; e multiplicar-se-iam em todas as terras os conversos à fé. 
    Nessa triunfante cena de Sua vida terrestre, o Salvador poderia haver aparecido escoltado por anjos celestiais e anunciado pela trombeta de Deus; essa demonstração, no entanto, teria sido contrária ao desígnio de Sua missão, contrária à lei que Lhe governara a vida. Permaneceu fiel à sorte humilde que aceitara. Devia levar o fardo da humanidade até haver dado a vida pela vida do mundo. 
    Esse dia, que se afigurava aos discípulos o mais glorioso de sua vida, ter-se-ia toldado de sombrias nuvens, soubessem eles que a cena de regozijo não era senão um prelúdio aos sofrimentos e à morte do Mestre. Embora Ele lhes houvesse repetidas 
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vezes falado do sacrifício que certamente O aguardava, no alegre triunfo presente esqueceram Suas dolorosas palavras, e anteciparam-Lhe o próspero reino no trono de Davi. 
    Novos acréscimos se iam fazendo continuamente à procissão, e com poucas exceções, todos quantos a ela se juntavam eram possuídos pelo entusiasmo do momento, avolumando os hosanas que ecoavam de monte em monte, de vale em vale. Subiam continuamente as aclamações: "Hosana ao Filho de Davi; bendito O que vem em nome do Senhor. Hosana nas alturas!" Mar. 11:9 e 10. 
    Nunca dantes vira o mundo um cortejo triunfal como esse. Não se assemelhava ao dos famosos conquistadores da Terra. Não fazia parte daquela cena nenhuma comitiva de lamentosos cativos, como troféus da bravura real. Achavam-se em torno do Salvador os gloriosos troféus de Seus serviços de amor pelo homem caído. Estavam os cativos a quem resgatara do poder de Satanás, louvando a Deus por sua libertação. Os cegos a quem restituíra a vista, abriam a marcha. Os mudos cuja língua soltara, entoavam os mais altos hosanas. Saltavam de alegria os coxos por Ele curados, sendo os mais ativos em quebrar os ramos de palmeira e agitá-los diante do Salvador. As viúvas e os órfãos exaltavam o nome de Jesus pelos atos de misericórdia que lhes dispensara. Os leprosos a quem purificara, estendiam na estrada as vestes incontaminadas, ao mesmo tempo que O saudavam como Rei da glória. Aqueles a quem Sua voz despertara do sono da morte, tomavam parte no cortejo. Lázaro, cujo corpo provara a corrupção no sepulcro, mas que então se regozijava na força da varonilidade gloriosa, conduzia o animal que Jesus montava. 
    Muitos fariseus testemunhavam a cena e, ardendo de inveja e malignidade, buscavam desviar a corrente dos sentimentos populares. Com toda a sua autoridade tentaram impor silêncio ao povo; mas seus apelos e ameaças não faziam senão aumentar o entusiasmo. Temeram que essa multidão, na força de seu número, fizesse Jesus rei. Como último recurso, avançaram por entre a turba até onde estava o Salvador, e abordaram-nO com palavras de censura e ameaça: "Mestre, repreende os Teus discípulos." Luc. 19:39. Declararam não serem lícitas tão ruidosas manifestações, nem permitidas pelas autoridades. Foram, porém, reduzidos ao silêncio pela réplica de Jesus: "Digo-vos que, se estes se calarem, as próprias pedras clamarão." Luc. 19:40. Aquela cena de triunfo era designada pelo próprio Deus. Fora predita pelo profeta, e o homem era impotente para impedir os Seus desígnios. Houvesse o homem deixado de executar Seu plano, e Ele teria comunicado voz às inanimadas pedras, que saudariam Seu Filho com aclamações 
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 de louvor. Ao retirarem-se os mudos fariseus, foram proferidas por centenas de vozes as palavras de Zacarias: "Alegra-te muito, ó filha de Sião; exulta, ó filha de Jerusalém; eis que o teu Rei virá a ti, justo e salvador, pobre, e montado sobre um jumento, sobre um asninho, filho de jumenta." Zac. 9:9. 
    Quando o cortejo chegou ao cimo da colina e estava para descer para a cidade, Jesus deteve-Se, e toda a multidão com Ele. Perante eles se descortinava Jerusalém em toda a sua glória, nesse momento banhada à luz do Sol poente. O templo atraiu todos os olhares. Em majestosa suntuosidade erguia-se ele acima de todos os outros edifícios, parecendo apontar para o Céu, como a dirigir o povo ao único e verdadeiro Deus. O templo fora de há muito a glória e o orgulho da nação judaica. Também os romanos se orgulhavam de sua magnificência. Um rei designado pelos romanos se unira aos judeus para o restaurar e embelezar, e o imperador de Roma o enriquecera com suas dádivas. Sua firme estrutura, riqueza e magnificência o haviam tornado uma das maravilhas do mundo. 
    Enquanto o Sol no Ocidente tingia e dourava o Céu, o resplendor de sua glória iluminava o puro e alvo mármore das paredes do templo, pondo-lhe cintilações nas áureas colunas. Do alto do monte onde Jesus parou com Seus seguidores, apresentava ele a aparência de maciça estrutura de neve, marchetado de capitéis de ouro. À entrada do templo achava-se uma videira de ouro e prata, com verdes folhagens e maciços cachos de uvas, executados pelos mais hábeis artistas. Esse desenho representava Israel como uma próspera vinha. O ouro, a prata e verde vivo eram combinados com raro gosto e consumada maestria; enlaçando graciosamente os alvos e luzentes pilares, agarrando-se com as brilhantes gavinhas a seus dourados ornamentos, refletia o esplendor do Sol poente, resplandecendo como se o Céu lhe houvera emprestado a sua glória. 
    Jesus contempla a cena, e a multidão silencia suas aclamações, encantada com a súbita visão de beleza. Todos os olhos se volvem para o Salvador, esperando ver-Lhe no semblante a admiração por eles próprios experimentada. Ao contrário, no entanto, percebem-Lhe uma nuvem de tristeza. Surpreendem-se, decepcionam-se ao ver-Lhe os olhos marejados de lágrimas e o corpo oscilar como a árvore agitada pela tempestade, enquanto uma angustiosa queixa Lhe brota dos trêmulos lábios, como irrompendo das profundezas de um coração partido. Que cena aquela que se oferecia à contemplação dos anjos! Seu bem-amado Comandante em lágrimas de angústia! Que visão para a alegre turba que, com gritos de triunfo e agitar de palmas O escoltava à 
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gloriosa cidade, onde - esperavam com ardor - iria Ele em breve reinar! Jesus chorara ao pé do sepulcro de Lázaro, mas fora numa divina mágoa de simpatia para com a humana dor. Esta súbita tristeza, porém, era qual nota de lamento em meio de um grande coro triunfal. Por entre uma cena de regozijo, em que todos Lhe tributavam homenagens, o Rei de Israel Se debulhava em lágrimas; não as silenciosas lágrimas da alegria, mas pranto e gemidos de inexprimível angústia. A turba sentiu-se repentinamente tomada de tristeza. Emudeceram-lhes as aclamações. Muitos choraram, possuídos de simpatia por um pesar que não podiam compreender.  
    As lágrimas de Jesus não eram a antecipação de Seus próprios sofrimentos. Mesmo diante dEle achava-se o Getsêmani, onde em breve O envolveria o horror de uma grande treva. Estava à vista também a porta das ovelhas, pela qual, durante séculos, haviam sido conduzidos os animais destinados às ofertas sacrificais. Essa porta presto se abriria para Ele, o grande Cordeiro de Deus, a cujo sacrifício pelos pecados do mundo apontavam todas essas ofertas. Perto estava o Calvário, cenário de Sua próxima agonia. No entanto, não foi por causa desses pontos a lembrarem-Lhe a cruel morte que o Redentor chorou e gemeu em angústia de espírito. Não era uma dor egoísta, a Sua. O pensamento de Sua própria agonia não intimidava aquela nobre Alma pronta para o sacrifício. Foi a vista de Jerusalém que pungiu o coração de Jesus - Jerusalém, que rejeitara o Filho de Deus e Lhe desdenhara o amor, que recusara ser convencida por Seus poderosos milagres e estava prestes a tirar-Lhe a vida. Viu o que ela era, em sua culpa de rejeitar o Redentor, e o que poderia ter sido caso O houvesse aceitado a Ele, o único a poder-lhe curar a ferida. Viera para salvá-la; como poderia a ela renunciar? 
    Israel fora um povo favorecido; Deus fizera de seu templo a Sua habitação; era "formoso de sítio, e alegria de toda a Terra". Sal. 48:2. Aí se achava o registro de mais de mil anos do protetor cuidado e terno amor de Cristo, como de um pai tratando com um filho único. Naquele templo emitiram os profetas suas solenes advertências. Ali foram agitados os ardentes incensários, enquanto o incenso, de mistura com as orações dos adoradores, ascendera para Deus. Ali fluíra o sangue dos animais, tipo do sangue de Cristo. Ali manifestara Jeová sua glória sobre o propiciatório. Ali oficiaram os sacerdotes, e a pompa do símbolo e da cerimônia havia continuado por séculos. Tudo isso, porém, devia ter um fim. 
    Jesus ergueu a mão - aquela mão que tantas vezes beneficiara os enfermos e sofredores - e movendo-a na direção da condenada cidade, em entrecortadas frases de dor, exclamou: "Ah! se tu soubesses também, ao menos neste teu dia, o que à tua paz 
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pertence!..." Luc. 19:42. Aí Se deteve o Salvador e deixou por dizer qual seria a condição de Jerusalém, houvesse ela aceito o auxílio que Deus lhe desejava dar - o dom de Seu bem-amado Filho. Se Jerusalém houvesse sabido o que era seu privilégio saber, e dado ouvidos à luz que o Céu lhe enviara, teria permanecido de pé no orgulho de sua prosperidade, rainha de reinos, livre na força do poder dado por seu Deus. Não teria havido soldados armados às suas portas, nem bandeiras romanas tremulando de seus muros. O glorioso destino que felicitaria Jerusalém, houvesse ela aceito o Redentor, surgiu aos olhos do Filho de Deus. Viu que, por meio dEle, seria ela curada de sua grave enfermidade, libertada da escravidão e estabelecida como a poderosa metrópole da Terra. De suas muralhas partiria a pomba da paz, em direção de todas as nações. Seria ela o diadema de glória do mundo. 
    Mas a brilhante visão do que poderia haver sido Jerusalém se desvanece aos olhos do Salvador. Compreende o que ela é então, sob o jugo romano, sob o desagrado de Deus, condenada ao Seu juízo retribuidor. Reata o fio de Sua lamentação: "Mas agora isto está encoberto aos teus olhos. Porque dias virão sobre ti, em que os teus inimigos te cercarão de trincheiras, e te sitiarão, e te estreitarão de todas as bandas, e te derribarão, a ti e aos teus filhos que dentro de ti estiverem; e não deixarão em ti pedra sobre pedra, pois que não conheceste o tempo da tua visitação." Luc. 19:42-44. 
    Cristo veio para salvar Jerusalém com seus filhos; mas o orgulho farisaico, a hipocrisia, a inveja e a maldade O impediram de realizar Seu desígnio. Jesus sabia a terrível retribuição com que seria visitada a condenada cidade. Viu Jerusalém cercada de exércitos, os sitiados habitantes levados à fome e à morte, mães alimentando-se do corpo morto dos próprios filhos, e tanto pais como filhos arrebatando um ao outro o último pedaço de pão, destruída a afeição natural pelas corrosivas angústias da fome. Viu que a obstinação dos judeus, segundo se evidenciava no rejeitar da salvação por Ele oferecida, os levaria também a recusar submissão aos exércitos invasores. Contemplou o Calvário, no qual havia de ser erguido, tão densamente coalhado de cruzes como de árvores uma floresta. Viu os infelizes habitantes sofrendo em instrumentos de tortura e mediante crucifixão, destruídos os belos palácios, o templo em ruínas, e de seus maciços muros nem uma pedra deixada sobre outra, enquanto a cidade era arada como um campo. Bem podia o Salvador chorar em face de tão terrível cena! 
    Jerusalém fora a filha de Seus cuidados, e como um terno pai pranteia um filho extraviado, assim chorava Jesus sobre a 
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 bem-amada cidade. Como posso renunciar a ti? Como te posso ver votada à destruição? Deverei deixar-te encher o cálice de tua iniqüidade? Uma alma é de tanto valor que, em comparação com ela, os mundos desmerecem até à insignificância; mas ali estava toda uma nação para se perder! Quando o Sol, em declínio rápido se ocultasse no céu ocidental, terminaria o dia de graça de Jerusalém. Quando a comitiva se detinha no cimo do Olivete, não era ainda demasiado tarde para Jerusalém se arrepender. O anjo da misericórdia dobrava então as asas para descer do áureo trono, a fim de dar lugar à justiça e ao juízo prestes a vir. Mas o grande coração amorável de Cristo intercedia ainda por Jerusalém, que Lhe escarnecera as misericórdias, desprezando as advertências, e estava a ponto de mergulhar as mãos em Seu sangue. Se tão-somente Jerusalém se arrependesse, não seria ainda demasiado tarde. Enquanto os derradeiros raios do Sol poente pairavam sobre o templo, as torres e cúpulas, não a levaria algum anjo bom ao amor do Salvador, desviando-lhe a condenação? Formosa e ímpia cidade, que apedrejara os profetas, que rejeitara o Filho de Deus, que por sua impenitência se prendia em cadeias de servidão - seu dia de graça estava quase passado! 
    Todavia, novamente o Espírito de Deus fala a Jerusalém. Antes do fim do dia é dado outro testemunho em favor de Cristo. Ergue-se a voz desse testemunho, em correspondência com o chamado de um passado profético. Se Jerusalém atender ao chamado, se receber o Salvador que lhe está entrando pelas portas, poderá ainda ser salva. 
    Aos ouvidos dos guias, em Jerusalém, chegam as notícias de que Jesus Se aproxima da cidade, com grande ajuntamento de povo. Mas eles não têm bom acolhimento para oferecer ao Filho de Deus. Saem-Lhe ao encontro com temor, esperando dispersar a turba. Quando o cortejo está para descer o Monte das Oliveiras, é interceptado pelos principais. Indagam a causa do tumultuoso regozijo. Ao perguntarem: "Quem é Este?" os discípulos possuídos de inspiração, respondem. Em eloqüentes acentos, repetem as profecias concernentes a Cristo: 
    Adão vos dirá: É a semente da mulher que há de esmagar a cabeça da serpente. 
    Perguntai a Abraão, ele vos afirmará: "É Melquisedeque, Rei de Salém" (Gên. 14:18), Rei de Paz. 
    Dir-vos-á Jacó: É Siló, da tribo de Judá. 
    Isaías vos declarará: "Emanuel" (Isa. 7:14), "Maravilhoso Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz." Isa. 9:6. 
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Jeremias vos há de afirmar: O Renovo de Davi, "o Senhor, Justiça Nossa". Jer. 23:6. 
    Afirmar-vos-á Daniel: É o Messias. 
    Oséias vos dirá: É "o Senhor, o Deus dos Exércitos; o Senhor é o Seu memorial". Osé. 12:5. 
    Exclamará João Batista: "Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo." João 1:29. 
    O grande Jeová proclamou de Seu trono: "Este é o Meu Filho amado." Mat. 3:17. 
    Nós, Seus discípulos, declaramos: Este é Jesus, o Messias, o Príncipe da vida, o Redentor do mundo. 
    E o príncipe das potestades da trevas O reconhece, dizendo: "Bem sei quem és: o Santo de Deus." Mar. 1:24. 
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