Raabe – adotada pela esperança

Como voce respondera quando a esperanca bater a sua porta?

Veja ilustração: Raabe

Jericó era uma cidade de cananeus vendidos à idolatria e à iniqüidade. Os habitantes dessa cidade “haviam-se entregado ao mais detestável e aviltante paganismo ... viviam para blasfemar do Céu e contaminar a Terra” (Patriarcas e Profetas), pág. 492. E Deus tinha ordenado a Moisés, dizendo: “Porém, das cidades destas nações que o Senhor, teu Deus, te dá em herança, não deixarás com vida tudo o que tem fôlego. Antes, ... destruí-las-ás totalmente: os heteus, os amorreus, os cananeus, os farezeus, os heveus e os jebuseus” Deut. 20:16 e 17. Nessa ocasião, Jericó era a primeira grande fortaleza a ser conquistada pelos israelitas em sua marcha para a Terra Prometida. E, juntamente com todos os seus habitantes, estava destinada à total destruição.

Semente da esperança — Ali morava Raabe, uma meretriz cuja casa era conjugada ao compacto muro de proteção da cidade. Provavelmente, ela também era hospedeira; por isso, acolhia forasteiros. Além disso, trabalhava tingindo tecidos, razão pela qual estocava hastes de linho, espalhadas no telhado para secar. Sendo ela prostituta, alguém poderia corretamente supor que também era menosprezada, rejeitada, marginalizada e abandonada pela comunidade. Poderia ser dito que sua vida era nada menos que cheia de desespero. As manchas causadas por seu estilo de vida marcaram sua existência, e ainda permanecem, através das referências que lhe são feitas ainda hoje como prostituta.
Porém, como todos os demais habitantes de Jericó, ela ouviu sobre como o Deus de Israel guiou Seu povo e lhe garantiu vitórias sobre as nações que tiveram de enfrentar em sua jornada a partir do Egito. Todos ouviram da abertura do Mar Vermelho, aproximadamente 40 anos antes, e das pragas que caíram sobre os egípcios antes do Êxodo. A história daquela marcha e dos atos miraculosos do Senhor era conhecida por todos em Jericó (Jos. 2:10). Por isso, temeram pela própria vida, agora que os israelitas estavam a poucos quilômetros distantes da cidade.
Os relatos sobre o Deus de Israel geraram grande temor entre os habitantes de Jericó, levando-os a não aceitar o senhorio divino. Porém, aparentemente, o temor de Raabe era diferente. O relatório que ouvira pintou em sua mente um Deus com o qual ela desejou relacionar-se. Seu temor era quanto a se esse Deus iria aceitá-la, ou não. Foi através daquelas histórias que uma semente de esperança foi lançada em sua vida. A medida que os contos eram reiterados, um desejo intenso de Deus foi crescendo em sua alma.
Sua crescente paixão de pertencer ao Deus de Israel pôde ser notada quando os espias entraram na cidade. Esses indesejados estrangeiros eram uma ameaça ao povo de Jericó, mas Raabe lhes deu boas- vindas em sua casa, mesmo correndo o risco de ser desprezada e odiada por seus conterrâneos. A escolha que os espias fizeram por sua casa foi vista como a oportunidade áurea para satisfazer o profundo anseio de sua alma: pertencer ao Deus de Israel e receber dEle a salvação. Assim, quando os temíveis e desafiadores soldados de Jericó invadiram sua casa em busca dos espias, ela fugiu da verdade: “ verdade que os homens vieram a mim, porém eu não sabia de onde eram.
sendo já escuro, eles saíram; não sei para onde foram..:’ Jos. 2:4 e 5. Ela se encarregara de escondê-los, mesmo que esse gesto pudesse ser considerado traição à sua pátria.
A esperança bateu à porta de Raabe, e ela, em desespero, a aceitou.
Raabe poderia ter impedido que os espias entrassem em sua casa. Ou poderia ter usado a oportunidade para obter favor daqueles que a desprezavam, simplesmente entregando-lhes os espias. Ao contrário disso, voluntariamente, dirigiu-se a estes, como informante, dizendo: ‘Bem sei que o Senhor vos deu esta terra, e que o favor que infundis caiu sobre nós, e que todos os moradores da terra estão desmaiados:’ Jos. 2:9. Os homens e mulheres em Jericó sofriam o temor da morte, bem como da perda de ânimo e paz. Por outro lado, a esperança deu coragem, ânimo e paz a Raabe, fazendo com que ela experimentasse o que outros, naquela cidade, imaginassem impossível. A esperança libertou-a do temor.

Uma árvore da esperança — Raabe agarrou a oportunidade que surgira em seu caminho e, ao mesmo  tempo, corajosamente declarou sua crença: “Bem sei que o Senhor vos deu esta terra’ Assim, permitiu que a semente de esperança, lançada em seu coração, crescesse e se transformasse em uma árvore de fé no Deus de Israel.
A esperança bateu à porta de Raabe, e ela agarrou-a com as duas mãos.
Raabe demonstrou sua fé e esperança, através das seguintes atitudes:
1. Pediu que os espias jurassem pelo Deus de Israel, não pelos deuses aos quais ela servira durante toda a vida. Na verdade, a esperança levou-a a suplicar, persistentemente, uma promessa impossível: “assim como usei de misericórdia para convosco, também dela usareis para com a casa de meu pai” (v. 12). Era uma promessa impossível, porque Deus ordenara que ninguém deveria ser poupado em Jericó.
2. Sua confiança na liberdade provida pelo Senhor de Israel foi revelada em seu apelo por salvação, para si e sua família. Ela acreditou que o Deus de Israel salva todos os que escolhem ser salvos. Essa esperança lhe deu coragem para interceder pela salvação de outros.
3. Sua insistência por um “sinal certo” (v. 12) de que seria poupada, indicava sua crença em que o Senhor Deus de Israel era confiável naquilo que prometia.

Frutos da esperança — A esperança tornou voluntária e deleitosa a obediência de Raabe. Esperar, agora, era um grande prazer. Antes que os espias deixassem a casa, eles responderam positivamente ao pedido de Raabe: “A nossa vida responderá pela vossa” (v. 14). Sua fé foi recompensada; os espias prometeram que seriam responsáveis pela vida de qualquer membro da família de Raabe. Mas, também requereram fidelidade da parte deles no acordo: obediência.
Assim, com grande esperança, Raabe fez os espias descerem, amarrados por uma corda, o muro posterior de sua casa, pondo-os no caminho da segurança. Como sinal de proteção, ela pôs o “cordão de fio escarlata” na janela, convidou seus familiares à sua casa e esperaram todos, pacientes e fèlizes, o cumprimento da promessa de Deus. Creio que todas as vezes em que ela olhava aquele fio carmesim na janela, ficava mais esperançosa.                                                                                                                                                                                                           A esperança bateu à porta de Raabe, e ela a aceitou, agarrou e viveu.
No sétimo dia, os israelitas rodearam a cidade pela última vez. Enquanto os muros da cidade ruíam, os dois espias apressadamente executaram as ordens de Josué e salvaram a vida de Raabe e seus familiares. Ao passo que todos em Jericó corriam perigo, Raabe e sua famiia encontraram graça aos olhos do Senhor. Sua esperança foi recompensada, e sua vida foi poupada. “Pela fé, Raabe, a meretriz, não foi destruída com os desobedientes, porque acolheu com paz aos espias” Heb. 11:31.
Em adição a essa bênção, Raabe foi adotada na família de Israel com o direito de desposar um israelita. Isso a colocou na linha genealógica que a fez não apenas ancestral do rei Davi, mas também de Jesus — o Messias. Ela é uma das três mulheres mencionadas na genealogia de Cristo (Mat. 1:5 e 6).
Que jornada! A esperança levou -a espiritualmente de Jericó a Canaã, de meretriz a ancestral do Messias, de inimiga do reino a verdadeira filha do reino. Para essa prostituta, a jornada começou com uma semente de esperança plantada em seu coração. A semente cresceu e se tornou árvore de fé, frutificando em grande recompensa.
Está você conservando fielmente a esperança?

 
Geoffrey G. Mbwana é presidente da Divisão Centro-Leste Africana.

Perguntas para reflexão
1.Quem, ou o quê, em sua vida poderia
ilustrar uma história de esperança?
2. Que histórias, portadoras de esperança, poderíamos partilhar a respeito de Deus?
3. Como podemos viver, de modo que outros vejam a esperança que abraçamos?

 

Daniel – Esperança renovada.

 

Podemos perder algumas batalhas, mas o livro de Daniel diz que a guerra será ganha

Em 2005, a seleção de futebol de Gana, as Estrelas Negras, classificou-se para a Copa do Mundo da Alemanha. Os jogadores treinaram muito, perderam a primeira partida, mas não perderam a esperança. Criam que, mesmo que a batalha tivesse sido perdida, com determinação e muito trabalho, eles ainda poderiam se classificar e, assim, ganhar a guerra.
Além de fazer muito esforço, a equipe também fez algumas mudanças, entre elas, encontrar um novo técnico e mudar a posição de alguns atletas. A combinação funcionou e, ao fim da competição, eles se classificaram. As Estrelas Negras haviam perdido a batalha no começo, mas, motivadas pela esperança, foram capazes de vencer a guerra.
A história bíblica da caminhada de esperança de Daniel também demonstra que se pode perder uma batalha, mas a guerra pode ser vencida. Vamos analisar como a esperança funcionou na experiência de Daniel sob três pontos-de-vista: a vida no cativeiro, a vida em Babilônia e as aspirações de Daniel enquanto lá se encontrava.
Jerusalém: esperança para batalhas perdidas — No ano 605 a.C., Nabucodonosor, rei de Babilônia, juntamente com seus exércitos, sitiou e venceu Jerusalém (veja Daniel 1:2). Depois da derrota da cidade, Nabucodonosor levou de Jerusalém muitos cativos judeus, bem como artigos do Templo de Deus. Aguilhoados pela ponta insensível das lanças, sob estrita vigilância militar, os cativos estavam em uma situação que parecia indicar que tudo estava perdido — os pagãos haviam vencido o povo de Deus.
Moisés havia advertido repetidamente os israelitas de que a desobediência aos mandamentos de Deus poderia fazê-los ser levados ao cativeiro (veja Deut. 28:36 e 64; Dan. 9: 5 e 6) e, finalmente, Deus os entregou nas mãos dos pagãos. Eles se sentiam derrotados, desesperançados e desanimados.
Mas Daniel, um dos cativos, cria que, embora a batalha estivesse perdida, a guerra ainda poderia ser vencida — ainda havia esperança de perdão, libertação e restauração. Assim, Daniel começou seu livro com este tema: Deus está no controle.
Como cativo, Daniel sentiu-se desesperançado, mas apegou-se ao Deus da esperança. Não fora Ele que havia dito: ‘Se vocês pecarem e Eu os enviar para o exílio, e se vocês se arrependerem, Eu os ouvirei, perdoarei e os trarei de volta para Jerusalém” (veja Lev. 26:40-45; 11 Crôn. 7:13-15)?
Esperança presente — para os desafios da vida diária — Depois que Daniel chegou a Babilônia pela primeira vez, dois incidentes mostraram como a esperança atuou nos desafios que ele enfrentou como escravo em uma terra estranha. O primeiro foi a tentação de comer a comida do rei.
Daniel e outros jovens cativos escolhidos, que deveriam ser treinados para o serviço do rei, receberam uma “ração diária, das finas iguarias da mesa real e do vinho que o rei bebia (Dan. 1:5). A maioria dos jovens cativos nessa posição deve ter-se alegrado por alimentar-se da mesa do próprio rei, mas Daniel 1:8 diz: “Resolveu Daniel, firmemente, não contaminar-se com as finas iguarias do rei, nem com o vinho que ele bebia; então, pediu ao chefe dos eunucos que lhe permitisse não contaminar-se” (Dan. 1:8).
Daniel sabia que Deus havia proibido Seu povo de comer esse alimento, porque havia sido oferecido aos ídolos e não era bom para a saúde. Também estava ciente de que (1) com um forte fundamento bíblico, ele poderia evitar os falsos conceitos que estavam sendo impostos sobre ele; (2) a mudança de nome não poderia forçá-lo a abandonar sua lealdade ao Deus verdadeiro; e (3) são diretos os efeitos daquilo que comemos ou bebemos sobre nossa clareza mental, capacidade de resistir à tentação e capacidade de distinguir entre o certo e o errado.
E assim, em uma situação em que a maioria de seus patrícios, crentes na mesma religião, estavam satisfeitos com os confortos das condições de vida impostos por Babilônia, Daniel decidiu ser fiel a Deus e às Suas leis. Ele estava claramente cônscio de que suas ações poderiam levá-lo à morte, mas confiava que Deus poderia protegê-lo do perigo.
Sem dúvida, Deus honrou a confiança de Daniel. Dentro de dez dias de abstinência da comida do rei, Daniel e seus três companheiros tinham aparência muito melhor que a dos que se haviam alimentado dela. Além disso, no exame ao fim de três anos de educação, Daniel e seus amigos foram considerados dez vezes superiores àqueles que haviam falhado em tomar sua posição ao lado de Deus.

Na segunda situação, Daniel era um administrador de alto nível, candidato ao cargo de primeiro-ministro. Seus colegas, levados pela inveja e pelos ciúmes, convenceram o rei a estabelecer um decreto de que todos os que, pelo espaço de trinta dias, fizessem petição a qualquer deus ou a qualquer homem e não ao rei, fossem lançados na cova dos leões (Dan. 6:7).
Haveria Daniel de depender da posição política e da diplomacia para sair dessa situação? Daniel ainda mostrou a mesma evidência de esperança do passado ao orar a Deus três vezes ao dia, como era seu costume.
Diante da instigação de seus colegas. e sob a angustiosa tristeza do rei, Daniel foi lançado na cova dos leões. Outra vez sua esperança se cumpriu: o Senhor livrou Daniel dos leões.
Deus pode proteger e suster aqueles que nEle confiam. O profeta Isaías enfatiza isso: “Os que esperam em Mim não serão envergonhados” (Isa. 49:23). Daniel venceu os desafios da vida diária porque confiava no Deus a quem conhecia pessoalmente, mediante comunhão diária. Ele jamais permitiria que nada, nem mesmo a morte na cova dos leões, destruísse isso.
Quanto tempo você dedica à comunhão com Deus e com Sua Palavra? Uma condição para a esperança é que deve haver amplo conhecimento sobre a fonte da esperança, e um relacionamento significativo com ela. Daniel possuía essa experiência, e por ela, ele venceu. Nós também podemos vencer, unicamente se mantivermos forte ligação pessoal com a Fonte da Esperança

Esperança de um futuro melhor — Daniel havia sido salvo da cova dos leões. Seus inimigos haviam sido destruídos. Ele havia sido promovido e estava prosperando em Babilônia. Mas Babilônia não era seu lar. Em visão, o Senhor lhe revelou Seus planos para Seu povo, trazendo esperança ao coração de Daniel e aos leitores de seu livro. Daniel viu o glorioso futuro, em que serão consumados os planos de Deus para a humanidade. Ele viu a vinda do Messias Jesus Cristo, e Sua morte sacrifical pela humanidade (veja Dan. 9:23- 27), Sua mediação no santuário celestial (Dan. 8:9-14) e o momento em que ocorrerá a solução final para o conflito cósmico mediante um processo de purificação e juízo.
Nas visões, Daniel foi informado de que o tempo do fim ainda não havia chegado. Mas o povo de Deus é encorajado a conservar a esperança da final vitória de Deus sobre Seus inimigos. Haverá ocasiões em que as forças do mal parecerão ter a supremacia, oprimindo e perseguindo OS santos, mas seu livramento é certo. Daniel é um livro que fala de esperança em meio a conflito e perseguição.
A História pode indicar que os eventos mundiais estão fora do nosso controle, e os reinos deste mundo podem suceder-se sem qualquer alvo especial para o futuro. Mas Daniel nos diz que, sem dúvida, Deus está no controle, guiando os eventos na Terra ao seu alvo final: o estabelecimento do reino de Deus na Terra. Essa esperança está centralizada na vinda do Messias prometido, a quem Deus concederá o reino eterno.
O mundo em que vivemos pode parecer estar fora de controle e em caos, mas nossa esperança afirma que não é assim. Deus está, sem dúvida, trabalhando em meio ao caos, materializando nossa esperança. Continuemos alimentando a esperança pelo estudo da esperança de Daniel, que, de fato, é a esperança adventista.

 

Brempong Owusu-Antwi é vice-chanceler da Universidade Adventista da África,                                                                                         localizada em Nairóbi, Quênia.

Perguntas para reflexão
1.
Já lhe aconteceu de sentir-se desesperançado ou sem saída? Como você lidou com esses sentimentos? Ao fim, Deus mostrou ter controle sobre as situações?
2. Quando perde uma batalha, você tende a desistir, ou continua tentando até vencer a guerra? Este artigo ajudou a mudar suas perspectivas ou a lidar com os desafios e aparentes derrotas? De que maneiras?