ALGUÉM TEM DE  PAGAR

Carlos entrou numa venda. Quando o Sr. Roberto, dono da venda perguntou a Carlos o que ele queria, Carlos pediu tres cocadas, e deu ao Sr. Roberto una nota de duzentos cruzeiros.
O Sr. Roberto era idoso, e a vista já  estava um tanto turva.
Além disso, estava com muita pressa. Ao dar o troco a Carlos, havia dez cruzeiros a mais. Enganara-se.
Por um momento Carlos ficou surpreso. Entao pos depressa o troco no bolso e apressou-se a sair do armazém.
Mas não se sentia bem com isso: Em sua consciência havia uma voz que dizia, e repetia sempre: “Isto não está certo,Carlos.”
“Mas, eu nao fiz nada de mal”, dizia Carlos de si para si. Não furtei o dinheiro. O Sr. Roberto foi quem me deu. O erro foi do Sr. Roberto.”
Mas a consciência de Carlos nao acreditava nisso. Era como uma lasquinha de madeira, ou um espinho, a machuca-lo sempre. Nao podia varrer do pensamento o caso. Afinal, foi falar com a mãe.
— Mamãe, disse Carlos, se alguém comete um erro, dando a uma pessoa troco demais numa compra, de quem é a falta?                        

A mãe de Carlos era muito sabia. Disse: — Realmente nao importa de quem seja a falta. Se alguém por engano lhe dá alguma coisa que nao pertence a você, isso não torna a você dono disso. Você deve explicar o caso a pessoa, e devolver o excesso.
— Mas, por que isso, mamãe? Isto não é furtar, é?
— Não, não é  furtar, meu filho; mas, você vê, alguém tem de pagar as mercadorias que há no armazém. Se for cometido um erro e você receber dinheiro ou mercadoria que não lhe pertence, não é simples erro. Pode dar-se isso com o caixeiro que serve ao freguês. Ou com o dono ou gerente do negócio. Mas alguém terá de pagar aquilo que você têm em mãos e não pagou.
“Entao o Sr. Roberto terá de repor em sua máquina registradora os dez cruzeiros que ele me deu demais de troco”, pensou Carlos.                                                                                                                                                         Agora Carlos sabia por que era que a consciência o estava perturbando. Não era porque tivesse tirado alguma coisa que não lhe pertência, mas porque estava guardando uma coisa que pertencía a outro!
Correu ao armazém e disse: — Sr. Roberto, o senhor me deu troco demais. Vim traze-lo de volta, pois é seu, e não meu.
O Sr. Roberto sorriu.- Eu notei o erro logo que você saiu, disse ele; mas estava certo de que você voltaria para me explicar o caso. Guardei aqui este doce para lhe dar logo que viesse. Eu sabia que você é dessa espécie de menino.
Quando Carlos saiu da venda, com o doce na mão, sentia-se muito feliz. O doce logo seria comido e esquecido, mas as palavras do Sr. Roberto ficariam com Carlos por muito tempo.